sexta-feira, 20 de março de 2009

Was that your idea of love?

Era essa a tua ideia de amor?
Era essa a tua ideia de amor?


Essas mentiras brilhantemente compostas
Elas surpreenderam-me imenso
Era essa a tua ideia de amor?

Essa procura incessante de podres
Essa procura de motivos onde doía –
Era essa a tua ideia de amor?

E todas essas acusações que fizeste
Sobre as maneiras subtis em que foste traída
Era essa a tua ideia de amor?

Parecia que me afogava. Parecia uma imersão
Num mar escuro de culpa
Até eu descobrir que era tudo um desvio.
Tu tinhas um jogo secreto.
Tu tinhas um jogo a jogar e tu jogavas duro.
Era essa a tua ideia de amor?

Engraçado como nunca a vi aproximar-se de nós
Esta vontade de vingança e ódio
Engraçado como por tanto tempo continuei a pensar
Deve haver uma maneira simples de pôr as coisas bem.
E o mais engraçado, pensar em ti
A fingir procurar conselhos profissionais
Quando o que tu querias era
A qualquer custo para quem quer que fosse,
A qualquer preço
Para mim...

Era essa a tua ideia de amor?
Era essa a tua ideia de amor?


Ressentimento disfarçado de encanto
Esse cuidado em planear futuros estragos
Era essa a tua ideia de amor?

Esse engenioso uso de provas
Para quebrar cada última defesa
Era essa a tua ideia de amor?

Esse conjurar do mal a partir do bem
Esse imitar de vítima
Era essa a tua ideia de amor?

Certamente mereces os parabéns
Por uma campanha eficiente
Gostaria de saber as regras da rendição imediata
Mas suponho que as tornaste óbvias
Elas vão ser duras
É esta a tua ideia de amor?

Livra-te de mim, eu peço-te. Deixa-me ser.
Diz-me outra vez que não queres mais de mim.
Era esse o entendimento?
Era essa a soma?
Ou há mais disto –
Há mais disto por vir?

É esta a tua ideia de amor?
É esta a tua ideia de amor?


Livra-te de mim, eu peço-te. Deixa-me ser.
Diz-me outra vez que não queres mais de mim.

É esta a tua ideia de amor?

segunda-feira, 16 de março de 2009

On annonce / Anunciam.

On annonce le
vol en provenance
de Barcelone à la porte trente-deux.

Elle est allongée
sur le dos, dans l’herbe,
elle croit tomber en regardant le ciel.

Sur l’échafaudage
que le vent balance,
il repeint en sifflant le mur de l’immeuble.

Un car de transport
scolaire est tombé
dans un ravin : 6 morts et 22 blessés.

Elle a cassé le
thermomètre pour
jouer avec les boules de vif-argent.

Il souffle sur la
limaille de fer.
Le bruit des machines traverse le casque.

Le grand magasin
ferme. Les vendeuses
sortent vite par la porte de service.

Pendant le dîner,
les informations :
champ de décombres du tremblement de terre.

L’enfant se réveille
et il s’aperçoit
qu’une fois encore il a trempé son lit.

Elle dit bonsoir
d’une voix très rauque
qui ressemble à un sanglot inexplicable.

Il reste deux heures
devant le flipper,
cramponné à l’appareil, les dents serrées.

Après le dîner
c’est encore la
télé. Elle tricote en la regardant.

Il est accroupi
dans les escaliers
et c’est écrit sur un carton qu’il a faim.

Elle ne l’a pas
entendu venir.
Tressaille en sentant la main sur son épaule.

Il met deux doigts sous
les aisselles du
nouveau-né pour le faire sortir du ventre.

La voiture, après
un tête-à-queue et
deux tonneaux va se planter dans le talus.

Ils se tiennent par
le bras et promènent
devant eux, en parlant, leur canne d’aveugles.

Il met toujours un
bouquet de violettes
devant la photo de sa femme. Il est veuf.

La petite fille
se cache derrière
la porte et s’endort. On la trouve. On en rit.

Il ouvre les yeux,
ne reconnaît rien.
A tout oublié. Ne sait plus qu’un mot : oui.

Il fait nuit et froid.
Elle marche vite.
Derrière elle, un pas d’homme insiste. Elle a peur.

Le père aime bien
sa fillette. Il aime
pincer les joues rebondies. Il lui fait mal.

Elle tourne la
cuillère de bois
dans la confiture, rouge translucide.

Le virage tue
ou blesse, bon an
mal an, sa vingtaine d’automobilistes.

Michelle Grangaud.
Anunciam o
voo proveniente
de Barcelona na porta trinta e dois.

Ela está deitada
de costas, na erva.
Crê cair ao olhar o céu.

No andaime
que o vento balança
ele pinta de novo, assobiando, o muro do edifício.

Um carro de transporte
escolar caiu
numa ravina: 6 mortos e 22 feridos.

Ela partiu
o termómetro para
brincar com os glóbulos de mercúrio.

Ele sopra
as limalhas de ferro
O barulho das máquinas trespassa o capacete.

A grande loja
fecha. Os vendedores
saem rápido para a porta de serviço.

Durante o jantar,
as notícias:
escombros do tremor de terra.

O rapaz acorda
e apercebe-se
que, mais uma vez, molhou a sua cama.

Ela diz boa noite
com uma voz muito rouca
que se assemelha a um soluço inexplicável.

Ele fica 2 horas
à frente dos "flippers",
colado à máquina, os dentes serrados.

Depois do jantar
é outra vez
a televisão. Ela tricota enquanto a vê.

Ele está agachado
nas escadas
e está escrito num cartão que ele tem fome.

Ela não o
ouviu vir.
Estremece ao sentir a mão sobre o seu ombro.

Ele mete dois dedos por baixo
das axilas do
recém-nascido para o fazer sair do ventre.

O carro, depois
de um peão e
de duas voltas no ar aterra na encosta.

Eles agarram-se pelo
braço e passeiam-se
à sua frente, enquanto falam, as suas canas brancas ( = de cegos)

Ele mete sempre um
"bouquet" de violetas
à frente da foto da sua mulher. É viúvo.

A pequena rapariga
esconde-se atrás
da porta e adormece. Pessoas encontram-na. E riem-se.

Ele abre os olhos,
não reconhece nada.
De tudo esquecido. Não sabe mais que uma palavra: sim.

Está noite e frio.
Ela anda rápido.
Atrás dela, um passo de homem ainda se ouve. Ela tem medo.

O pai ama muito
a sua filha. Gosta
de lhe apertar as bochechas rechonchudas. Está a aleijá-la.

Ela mexe a
colher de pau
na geleia vermelha translucida.

A curva mata
ou fere, ano sim
ano não, a sua parte de automobilistas.

Michelle Grangaud.